quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Avô Francisco Silvério de Carvalho de Magalhães Serrão

Este trabalho está em fase de estudo e portanto incompleto, ainda não fiz a revisão do texto nem sequer foi visado pela comissão de censura...

Francisco Silvério de Carvalho de Magalhães Serrão

Terá nascido em 15 de Junho de 1779 em Figueiró dos Vinhos, Comarca de Tomar. Filho de Francisco António de Carvalho Henriques e de D. Maria Xavier de Barros Magalhães.
Viveu em Lisboa onde terá casado com Bárbara...... de quem terá enviuvado sem geração.

Teve geração "natural" (não era casado católicamente) de Ana Júlia Pinto de Miranda
Exerceu o cargo de Fiscal do Contrato de Tabaco em Aveiro.

Viveu a época da Revolução Francesa com grande entusiasmo pelas novas ideias revolucionárias e por novas formas de viver a liberdade que acolheu.

Numa época de fortes tumultos monárquicos onde as ideias liberais despontavam e as absolutistas se lhes opunham ferozmente, torna-se necessário entender esses tempos conturbados e se não façam juízos errados acerca do que eram as coisas ao olhar para elas com olhos do século XXI.

Vamos recuar até esse tempo e tentar perceber um pouco da nossa história enquanto portugueses e depois na qualidade de descendentes de um dos “Mártires da Liberdade”. Não faremos apreciações de ordem moral acerca do que foram as pessoas nem sequer deveremos extrair conclusões para produzir juízos por opções que tomaram dado que cada uma dessas acções resultou na nossa própria existência e das circunstâncias em que ocorreram.

A sucessão de D. João VI e a instabilidade politica

A morte de D. João VI de Portugal levantou um problema de sucessão. O rei tinha dois filhos adultos mas as relações com ambos e entre ambos eram complicadas. D. Pedro, o seu primogénito e herdeiro tinha sido deserdado na sequência dos eventos de 7 de Setembro de 1822 que levaram à independência do Brasil.

Com Miguel, a relação não era mais fácil, isto que o príncipe já se tinha revoltado contra o pai pelo menos duas vezes e estava exilado.

Após o assassínio de D. João VI, com a ideia de reunificar as coroas de Portugal e Brasil, a regência da Infanta Isabel nomeou D. Pedro, Imperador do Brasil, como seu sucessor. Em 1826, Pedro torna-se Rei de Portugal como D.Pedro IV, mas, como a constituíção brasileira de 1824 impedia que governasse ambos os países, abdicou um mês depois para a filha menor, Maria da Glória (D. Maria II).

O seu irmão Miguel foi nomeado regente de Portugal e foi contratado o seu casamento com a sobrinha.

D. Miguel voltou do exílio e assumiu a regência em nome da sobrinha. Em 23 de Junho de 1828, as Cortes aclamaram, porém, D. Miguel como rei de Portugal, considerando-o legítimo herdeiro do trono e ilegítimos todos os actos praticados por D. Pedro IV em relação a Portugal após a declaração da independência do Brasil.

Na sequência do golpe de estado de D. Miguel de Março de 1828, que restaurava a monarquia absoluta, as forças liberais responderam com a revolução de 16 de Maio desse mesmo ano, iniciada em Aveiro e no Porto e com ramificações noutras cidades e vilas do país.

O governo miguelista reagiu violentamente a esta revolta, perseguindo e prendendo muitos dos liberais que não conseguiram fugir ou exilar-se. Entre as centenas de vítimas do absolutismo miguelista contam-se os quatro cidadãos residentes no distrito de Aveiro, condenados à morte em 9 de Abril de 1829 e enforcados e decapitados na Praça Nova do Porto.

Por ordem da Alçada do Porto, depois de enforcados foram decapitados e as cabeças foram depois pregadas em postes e expostas em diferentes pontos de Aveiro (3) e Vila da Feira (a de Clemente de Melo).

“Os Réus ficavam exauctorados e privados de todas as honras, privilégios e dignidades de que gosavem, e condemnados a que, com baraço e pregão, forssem levados pelas ruas publicas do Porto, até ao largo da Praça-Nova, e na forca que na mesma se havia de levantar, morressem enforcados, sendo-lhes depois cortadas as cabeças, para se affixarem em um alto póste, nos logares do delito. Foram também condemnados á confiscação de todos os seus bens”

"Mártires Liberais

Ao recordar e dignificar os seus mártires o Porto assume-se como cidade berço da Liberdade

Convido o leitor para me acompanhar num itinerário em que se evoca um dos dias mais trágicos da história do Porto, mas que constituiu, simultaneamente, um daqueles actos de supremo sacrifício e de abnegada virtude, em que viria a assentar, mais tarde, a legenda de INVICTA que a cidade orgulhosamente ostenta no seu brasão.

Como ponto de partida sugiro o pedestal que sustenta a estátua de D. Pedro IV, na Praça da Liberdade, designação que anda indelevelmente ligada ao assunto em causa. Repare o leitor em duas placas de bronze que estão à direita e à esquerda da base do monumento. Foram ali mandadas colocar pela Câmara Municipal em 1914. Em cada uma delas estão gravados vários nomes. Correspondem aos de doze liberais que naquele mesmo local foram enforcados por ordem dos tribunais miguelistas.

Aconteceu tudo há já muito tempo. Há, exactamente, cento e setenta e um anos, ontem completados.


O dia 7 de Maio de 1829 amanheceu, no Porto, de cariz sombrio. Uma espessa e pesada melancolia envolvia toda a cidade, tão densa e húmida como a própria neblina que subia do Douro. Na então chamada Praça Nova estavam levantadas duas forcas, pintadas de roxo, à espera, se assim se pode dizer, dos liberais que haveriam de chegar “com baraço e pregão” como ordenava a sanguinária sentença.

Antes, aquelas mesmas forcas haviam servido para nelas serem pendurados três ladrões de estrada. Num mero exercício de imaginação, acompanhemos os condenados, desde o edifício da cadeia, na Cordoaria, até ao cadafalso. Enquadravam um cortejo, no mínimo, sinistro.

À frente a cavalaria, como nas procissões solenes, em farda de gala. A ladear os condenados, a infantaria e outros guardas apeados, de baioneta calada. O som lúgubre, produzido pelo bater dos cascos das alimárias e das botas dos soldados, no lajedo da calçada, confundia-se com as preces e os cânticos em latim dos confessores e mais padres que assistiam aos réus.

Um pouco mais atrás, vinham os meirinhos e demais oficiais de justiça, envoltos no negro das suas capas tradicionais, e a fechar os irmãos da Misericórdia, de balandraus e com a bandeira alçada.

O desfile saiu do Olival, meteu à Calçada dos Clérigos e entrou na Praça Nova. Da execução da sentença encarregaram-se dois carrascos, um de Lisboa e o famigerado João Branco, do Porto, “um facínora e ébrio inveterado”, segundo se escreveu num jornal daquele tempo.


Outro jornal, “O Correio do Porto”, afecto, claro, à causa miguelista, considerou a sentença que mandou para a forca os liberais, “era um serviço a Deus, a el-rei e à sociedade”.

“Porto” e pão de ló


Onde hoje está o Banco Nacional Ultramarino era o convento dos frades de S. Filipe de Néri que das janelas das suas celas assistiram a tudo, brindando com cálices de vinho do Porto e pão de ló “a D. Miguel e à santa religião...”

Logo a seguir às execuções, os carrascos cortaram as cabeças aos corpos inertes para que se desse total cumprimento à sentença. Com efeito constava dela que as cabeças deveriam ser espetadas em altos postes e colocadas diante das casas dos mais próximos familiares das vítimas, “como exemplo”.

Simplesmente sinistro.

Pela uma hora da tarde “os trabalhos” estavam terminados. João Branco, e o outro carrasco, dirigiram-se ao tanque da Senhora da Natividade que havia onde agora está o Banco de Portugal e, com o possa, lavaram paulatinamente as facas das decapitações e as mãos e os braços “retintos de sangue”.

Um dos supliciados nas forcas da Praça Nova foi António Bernardo de Brito e Cunha, cavaleiro professo das Ordens de Cristo e da Conceição, contador da Real Fazenda. Tinha 47 anos de idade e era natural do Porto onde residia, na Rua das Taipas. A casa ainda lá está, com o brasão da família na frontaria. Consta que depois daquele trágico acontecimento, e durante muitas gerações, ninguém daquela família portuense voltou a pisar o centro da Praça Nova, em homenagem e por respeito à memória do seu antepassado.

Consta no seio da nossa família que Ana Júlia terá até cegado de tanto chorar a morte de Silvério. (creio que deverá haver aqui algo que não estará bem contado, ninguém cega por chorar, deve ter acontecido outra coisa qualquer)

Os corpos decapitados dos Mártires da Liberdade que morreram nas forcas da Praça Nova foram depois conduzidos pelos irmãos da Misericórdia para o adro dos enforcados e aí enterrados ao lado dos cadáveres de criminosos de delito comum. Esse cemitério ficava nas traseiras do Hospital de Santo António onde recentemente foi construída a nova fase daquele estabelecimento hospitalar.

Em 1836, três anos depois da vitória dos liberais, exactamente no dia em que se completava o sétimo aniversário da execução, os restos mortais dos liberais enforcados na Praça Nova foram trasladados para um sarcófago de pedra que depois foi colocado no átrio da igreja da Misericórdia, na Rua das Flores.

Em 18 de Junho de 1878 as ossadas dos Mártires da Liberdade deixaram definitivamente o sarcófago do átrio da igreja da Misericórdia e foram transferidas para um mausoléu especialmente construído para o efeito no cemitério privativo da Santa Casa, no Prado do Repouso, onde ainda se encontram.

Onde ir
O Porto, cioso dos seus pergaminhos que o identificam como baluarte da Liberdade, honrou os seus Mártires evocando-os na toponímia da cidade em dois sítios diferentes: Campo dos Mártires da Pátria e Rua dos Mártires da Liberdade. Foram iniciativas do Município, naturalmente apoiadas pelos munícipes. Mas o povo anónimo, esse já antes havia manifestado a sua total solidariedade aos seus ilustres antepassados de uma forma simples mas cheia de profundo significado, ao mandar levantar, à custa de donativos particulares, à entrada do então chamado Largo do Olival (hoje Campo dos Mártires da Pátria) um monumento fúnebre evocativo dos trágicos acontecimentos da Praça Nova, constituído por uma coluna sobre a qual foi colocada uma figura representando a cidade. Desapareceu já esse singelo monumento que pretendia tão somente representar o triunfo da virtude sobre a tirania. A melhor maneira de honrarmos, hoje, a memória dos Mártires da Liberdade será uma visita ao Mausoléu do Prado do Repouso onde religiosamente se guardam os frios e inertes restos mortais dos Mártires, fiéis conservadores da Honra e da Liberdade tão rudemente sacrificados no altar da tirania.

Germano Silva

(in “Jornal de Notícias” de 8 de Maio de 2000 – pág. 40)


Foram eles:
Francisco Manuel Gravito da Veiga Lima, nasceu em 1776 em Lisboa, filho do desembargador Francisco António Gravito, que fixou residência em Aveiro no ano de 1780, por ter sido nomeado superintendente das obras da barra. Francisco Manuel Gravito foi fidalgo da casa real, cavaleiro professo da ordem de Cristo, desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, corregedor do cível da corte, deputado e conselheiro de Estado por nomeação de D. Pedro IV, datada de 1827. Foi na sua casa, na rua de Jesus, que tiveram lugar algumas das reuniões preparatórias da revolução.

Manuel Luís Nogueira, nasceu em 14 de Março de 1774 na freguesia de Baltar. Era bacharel em Direito e exercia a profissão de advogado no Porto, quando o governo liberal revolucionário (Junta do Porto) o nomeou juiz de fora em Aveiro, lugar de que tomou posse em 4 de Junho de 1828.

Clemente de Melo Soares de Freitas, nasceu em Angeja em 1802, mas residia desde muito novo em Aveiro, com toda a sua família. Depois da revolução tomou posse como juiz de fora na Vila da Feira, por nomeação da Junta do Porto que confirmava uma outra do governo da infanta D. Isabel Maria. Em Vila da Feira teve um papel fundamental em prol da revolução e das orientações emanadas da Junta do Porto.

Francisco Silvério de Carvalho Magalhães Serrão, nasceu em 1779 em Figueiró dos Vinhos. Residia em Aveiro onde desempenhava as funções de fiscal real do contrato do tabaco. Foi um dos principais dirigentes da revolução, tendo sido preso quando se deslocava de barco na Ria de Aveiro, levando consigo muitos documentos que o incriminavam e vinte e cinco armas carregadas, que pertenciam ao batalhão de voluntários que comandava.

A toponímia urbana de Aveiro recorda estes defensores da liberdade em outros tantos arruamentos:


segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A historia da minha 4ª Avó Ana Ludovina de Lemos Teixeira Pacheco de Aguilar

video

Musica "Viagem sem retorno"

Viagem sem retorno

A Guerra Peninsular entre 1807 e 1814, tem uma sequência de eventos envolvendo a península que remontam à Campanha do Rossilhão (1793–95), quando tropas de Portugal reforçam as da Espanha, integrando a primeira aliança liderada pela Inglaterra contra a França revolucionária. A partir da ascensão de Napoleão Bonaparte ao poder (1799), a Espanha alia-se à França para, por meio da invasão e da divisão de Portugal entre estes, atingir indirectamente os interesses comerciais do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda (Guerra das Laranjas), 1801.

Em Julho de 1807, com os acordos secretos de Tilsit, vai no entanto abrir-se um novo capítulo na guerra europeia. Em Agosto, enquanto Napoleão faz concentrar tropas em Baiona para a invasão de Portugal, os representantes da França e de Espanha em Lisboa entregaram ao príncipe regente de Portugal, D. João, os seus “pedidos”: Portugal teria que se juntar no bloqueio continental que a França decretara contra a Inglaterra; fechar os seus portos à navegação britânica; declarar a guerra aos ingleses; sequestrar os seus bens em Portugal, e prender todos os ingleses residentes.

Em 5 de Setembro de 1807, o general Andoche Junot está já em Baiona a cuidar dos últimos preparativos das tropas que irão invadir Portugal, antes de obter uma resposta definitiva do príncipe regente de Portugal, e antes mesmo de Napoleão assinar o Tratado de Fontainebleau com a Espanha em 27 de Outubro de 1807, no que parecia ser o projecto de uma repartição do território português em três novas unidades políticas:
-Lusitânia Setentrional – território entre o rio Minho e o rio Douro, um principado a ser governado pelo soberano do extinto reino da Etrúria, então Maria Luísa, filha de Carlos IV de Espanha;

Algarves – região compreendida ao sul do Tejo, a ser governada por Manuel de Godoy, o Príncipe da Paz, primeiro-ministro de Carlos IV, com o título de rei; e

Resto de Portugal – território circunscrito entre o rio Douro e o rio Tejo, região estratégica pelos seus portos, a ser administrada directamente pela França até à paz geral.

Tornando aparente à Espanha querer cumprir o Tratado de Fontainebleau, Napoleão ordena a invasão de Portugal, iniciando o que se denomina por Guerra Peninsular (1807–1814), cuja primeira parte é conhecida como invasões francesas a Portugal.

Na iminência da invasão, o príncipe regente, D. João, fizera já saber a Napoleão que iria cumprir as disposições do Bloqueio Continental e, em 30 de Outubro, declarara mesmo guerra à Inglaterra, mandando prender em Novembro os ingleses residentes em Portugal. A Convenção secreta entre Portugal e a Inglaterra, assinada no dia 22 de Outubro, estabelecia com segurança a manobra luso-britânica de pôr a salvo a Família Real e o governo português no Brasil.

A 12 Maio desse mesmo ano, tropas Luso-Britânicas sob o comando do General Arthur Wellesley e do comandante-em-chefe o Marechal William Carr Baresford, atravessaram o rio Douro e venceram a chamada Batalha do Douro, reconquistando a cidade do Porto a 29 de Maio e expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza. Seguindo para o sul, as tropas de Wellesley travaram a Batalha de Salamanca em território espanhol e regressaram a Portugal.

Após a vitoriosa Batalha de Salamanca, em 22 de Julho de 1812 , e a entrada triunfal em Madrid, a presença em Espanha de um exército superior fez Lorde Wellington ordenar a retirada das tropas Aliadas para Portugal.
Condições meteorológicas adversas, uma abundância de vinho novo ainda a fermentar, falta de disciplina, transformaram, o que deveria ter sido uma retirada ordeira, numa orgia de bebedeiras e pilhagens; um período que deveria ser esquecido da historia dos regimentos envolvidos.

O exército inteiro encontrava-se num estado deplorável, e a 4ª Divisão, que o Lt. General Sir Lorry Galbraith Cole liderou na retirada não era excepção; de facto poderia ser melhor descrito como um longo rasto de miséria e sofrimento humano.

Sir Lorry Cole estabeleceu o seu Quartel-General na Casa do Cabo em S. João da Pesqueira, no Distrito do Alto Douro, tendo as suas três brigadas aquartelado em povoações vizinhas. Todos os seu oficiais ficaram alojados nos melhores casas que encontraram na região, e a este respeito deram orgulhosamente a Sir William Anson, a 2 de Dezembro, a liderança do 27º e 40º Regimentos que se encontravam em Cedovim tendo ele próprio sido alojado na Casa de Nossa Senhora da Conceição.

A mansão era, e ainda o é, o centro desta pequena e isolada localidade do Alto Douro; Nela residia Dom Francisco Teixeira de Aguilar, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, que, juntamente com sua mulher Dona Maria Ludovina, eram senhores de um vasto território, de origens feudais, e de suas três filhas, ainda solteiras.

Nos princípios do século XVIII, neste mesmo sítio, havia uma modesta casa propriedade de Dom Francisco Teixeira Rebelo.

Enquanto jovem Dom Francisco apaixonou-se pela filha de um Nobre, D. Pais de Sande, dono da Casa do Cabo, cujo o seu antepassado, o Marquês de Sande, esteve profundamente envolvido nas negociações que precederam o casamento de Catarina de Bragança com Charles III de Inglaterra.

D. Pais de Sande não tinha um monarca Britânico em mente para sua filha, mas proibiu qualquer relacionamento dela com o seu jovem vizinho, que tinha por hábito exibir os seus dotes equestres em frente da janela do quarto de sua filha o que o deveria irritar profundamente. Em consequência disto enviou a Dom Francisco uma nota breve dizendo que aquela modesta casa em Cedovim não era casa para sua filha que estava habituada a uma casa como a Casa do Cabo.

O jovem ofendido jurou ensinar ao seu arrogante vizinho uma lição e para o provar arranjou um exército de pedreiros para alargar a sua casa até esta se transformar naquilo que é ainda hoje.

Para demonstrar a sua origem nobre, colocou na fachada o Brasão de Armas dos Teixeiras e Aguilar.
Enquanto a casa crescia ele gostava cada vez mais dela e quando estava completa fez saber ao seu vizinho D. Pais de Sande que agora a casa era tão boa que a filha dele não servia para a adornar.

Voltando àquele Inverno rigoroso de 1812, a hospedeira de Anson era Dona Maria Ludovina. A matriarca dos Aguilar, consciente do seu nobre sangue, a sua preocupação era a de encontrar um pretendente titular para suas três filhas, Maria do Carmo, Maria Josefa e Anna Ludovina.

Enquanto aguardavam por esses pretendentes, as três filhas levavam uma vida quase monástica, que era mais ou menos aceite pelas damas solteiras da época e da mesma condição social, sendo vigiadas de perto pela sua mãe, e quase isoladas do mundo exterior.

Quando a Brigada de Anson marchou até Cedovim, Dona Maria Ludovina teria já provávelmente escolhido as famílias titulares onde iria encontrar os pretendentes de suas filhas. De facto Maria do Carmo veio a ser Condessa de Samodães e Maria Josefa, Baronesa de Fornos.
Mas fosse qual fosse o titulo que ela teria previsto para a filha mais nova, Anna Ludovina tinha outros planos em mente e nunca aceitaria um casamento por conveniência.

A chegada de Anson e dos seus 300 homens deveriam ter provocado ás irmãs um estado de excitação muito grande, mas a mãe assegurou-se que aquilo que elas viam das forças estrangeiras era apenas á distancia e através das cortinas. Enquanto o exército era disperso pelo norte de Portugal acomodando-se para passar o Inverno, Wellington preparava o seu Estado Maior na pequena localidade de Freneda onde teria passado o Inverno anterior. Geograficamente ele achava o local ideal, era de fácil acesso aos seus comandantes mas longe de Lisboa, o que tornava as comunicações convenientemente difíceis com os membros corruptos da corte Portuguesa. Por ultimo, era excelente para a prática de caça, abundante naquelas paragens e naquela altura.

A chegada do “Grande Lorde” entusiasmava os habitantes locais, em particular as crianças da vila que apreciavam as guloseimas que ele lhes trazia e distribuía na praça central. Wellington frequentava a pequena capela adjacente á casa onde se alojara e que era ricamente decorada.

Mas foi durante as invasões Napoleónicas que esta e outras capelas foram alvo de vandalismo dos soldados Franceses para horror do clero e da muito religiosa população. Em Freneda a capela chegou a servir de estábulo das mulas! Claro que houve excepções: em Cedovim a pequena capela da vila foi usada exclusivamente como local de trabalho, diário e religioso, no qual, D. Maria Ludovina, na sua liteira coberta de seda, liderava a procissão para a missa. Estas excursões diárias ofereciam ás três irmãs a única oportunidade para observarem os “charmosos” soldados estrangeiros.

A conduta destes jovens soldados, durante a retirada de Madrid obrigou Wellington, a enviar um memorando enérgico aos comandantes de cada divisão e brigadas, reprovando energicamente as atitudes que tiveram ao longo da marcha para Portugal. Como resultado os oficiais estavam agora sob grande pressão para restaurar a ordem e disciplina em todos os postos. Ainda a recuperar dos ferimentos recebidos em Badajoz, o Tenente Waldron Kelly não era excepção, e durante este período ele esteve ocupado com os exercícios militares da 9ª Companhia do 40º Regimento.

Wellington não interferia com as preocupações espirituais dos seus homens, mas não gostava da interferência dos padres locais que persistentemente tentavam induzir nas suas tropas que deveriam assistir ás missas. A este respeito a sua perspectiva era muito clara: A consequência é que ninguém ia assistir ás missas, ainda que tivéssemos regimentos inteiros de Irlandeses e claro está Católicos Romanos, nunca vi um único a praticar qualquer acto religioso nestes países católicos excepto o Sinal da Cruz para induzir os locais a darem-lhes bebida.

Fosse o Tenente Waldron Kelly um devoto praticante ou quaisquer que fossem as suas razões, como três donzelas a passearem pela praça, o facto é que encontrou tempo, e fez o habito de ir á missa. De uniforme de gala, tanto quanto era possível naquelas circunstancias, tomou lugar na parte superior de onde podia ver D. Maria Ludovina e a sua prole. Enquanto do altar o padre pregava longos sermões sobre os demónios que rodeavam a vila, em forma de bêbados e ateus, Ana terá lançado um olhar a aquele oficial que comparecia diáriamente na Capela. Se D. Maria Ludovina as obrigava a tomar a Comunhão, é pouco provável que Ana tivesse dito ao seu confessor o que quer que fosse sobre isto, pois o padre não era nem mais nem menos que o seu tio, irmão de D. Francisco.

A atracção dos dois tornou-se mutua e mensagens começaram a ser trocadas, e até aos encontros clandestinos foi um passo. Pouco depois transformou-se em amor profundo. Ambos estavam conscientes do facto de que, os pais dela, que possuíam títulos de nobreza, tinham em mente para ela, e que por certo tomariam medidas drásticas para terminar esta associação, sabiam, também, que o regimento em breve receberia ordem de marcha e que isso poria ponto final naquela relação.

Toda esta felicidade foi no entanto de curta duração e o seu final chegou muito mais cedo do que eles haviam planeado. De facto os serviços de informação davam conta de movimentação suspeita de tropas inimigas de Salamanca e Wellington não perdeu tempo mandando avançar a 4ª divisão para as margens do rio Côa. O destino ainda não era conhecido e esta ordem súbita foi uma bofetada nos dois amantes.

Antes de partir a 28 de Fevereiro Kelly consolou Anna assegurando-lhe de que onde quer que ele fosse, regressaria para a vir buscar. O destino deste regimento era afinal Mata de Lobos, não muito distante de Cedovim. Como o nome sugere era um local de abundância de caça tão ao gosto do General Cole que de imediato organizou uma caçada para domingo dia 7 de Março, para o qual todos os Oficiais estavam convidados.

Se Kelly estava nesta categoria, não há duvidas de que declinou o convite e fez melhor uso dele para visitar Anna e discutir o futuro. De Mata de Lobos fez a sua ultima jornada para ver Anna, e tendo achado a separação insustentável, decidiram que a única solução era fugirem. Com detalhe e precisão militar fizeram os planos necessários á fuga.

Num sábado, 13 de Março, Wellington deu um baile em Figueira de Castelo Rodrigo em honra de Cole e para o investir com a Insígnia da “Order of Bath”. Com Cedovim desprovida de oficiais, que acorreram ao baile, era esta a melhor oportunidade. O palco estava montado, os actores ensaiados com Kelly a recrutar dois serviçais da Casa de Cedovim a troco de alguns Reis.

Comprou um cavalo e uma escada e preparou tudo para se encontrar com Anna a uma hora determinada por baixo da janela do quarto dela. Na noite da festa em Figueira de Castelo Rodrigo, provavelmente já a 14 de Março, Domingo, juntamente com dois outros oficiais, Kelly aproximou-se de Cedovim pela calada da noite e encontrou-se com os dois cúmplices, que os aguardavam com o cavalo e escadas. Anna desceu pela janela até ao rufo de um pequeno telhado sobranceiro e daí desceu pela escada para os braços do seu amor. A coberto da escuridão puseram-se em fuga.

Como parte do seu acordo com os criados da casa, eles deveriam ter ficado de vigia até que eles desaparecessem, mas assim que deixaram de os ver os criados foram a correr avisar D. Maria Ludovina. De inicio ela ficou incrédula, depois recuperou do choque e contou a seu marido que preocupado com a reputação da família terá dito que se ela não aparecesse que a deserdava e não permitiria que voltasse a pôr os pés naquela casa.

D. Maria Ludovina terá organizado um grupo de seis criados, incluindo os dois traidores, que saíram em perseguição dos fugitivos com ordens para trazerem Anna custasse o que custasse e não pouparem os soldados.

Os fugitivos eram atrasados pelos lentos cavalos de Ana e de sua bagagem e depressa eram alcançados pelo grupo de criados, armados de paus e facas.
Mas os oficiais estavam alerta e prontos a defender a sua presa a todo o custo, enquanto que a assustada Anna olhava do lado da estrada, Kelly e os seus camaradas desembainharam as suas espadas e avançaram para os seus oponentes que gesticulavam e gritavam. Durante esta breve contenda e antes que os soldados corressem com os criados, com um golpe certeiro de espada Kelly cortou dois dedos de um dos traidores. No meio da confusão o cavalo que transportava a bagagem de Ana foi levado com todos os seus bens para Cedovim.

Após se verem livres dos seus assaltantes, o grupo continuou a sua jornada a caminho de Mata de Lobos, e Anna nunca olhou para trás.

Anna e o seu amante deram-se conta que haviam desencadeado uma cadeia de eventos que até o Comandante - em - Chefe se veria envolvido.

Muitos destes factos ficam á imaginação de cada um, mas a mãe D. Maria Ludovina dirigiu os seus ataques directamente a Sir William Anson pois abandonaram a Casa com todo o seu staff de forma abrupta tendo inclusive deixado para trás muitos dos seus pertences inclusive algumas espadas que nunca foram reclamadas.
O sargento Lawrence da companhia de Kelly dá-nos conta de alguns factos de Cedovim. De acordo com ele, no dia seguinte o oficial no comando do 40º recebeu uma carta de D. Francisco na qual ele exigia o regresso de sua filha e punição para os responsáveis.

Kelly foi detido, recebeu uma reprimenda e colocado sob prisão, uma vez que “nesta altura deveria estar a pensar em coisas mais importantes do que em casamentos”.

No dia seguinte (escreveu Lawrence) ele levou a donzela até uma capela próximo e casou com ela, tendo depois disso festejado juntamente com a sua companhia com alguns copos de vinho com os quais brindaram o casal. Uma semana mais tarde o pai de Anna deu o assunto por encerrado e reconhecido que nada mais havia a fazer. (Na versão original diz “Uma semana mais tarde o pai de Ana aceitou o casamento e reconheceu Kelly como genro” – Não creio que assim fosse antes sim deu o caso como perdido)

Os registos existentes, provam que a narrativa do sargento Lawrence é razoavelmente certa. No entanto depois de o criado, que perdeu os dedos, ter trazido as noticias, foi de facto D. Maria Ludovina quem escreveu a carta e a entregou a Wellington em Freneda. E , apesar de não se conhecer os termos, exigiu o imediato regresso de sua filha e pesada punição dos autores ou autor. Simultaneamente, e como medida de precaução, deu ordens para que nenhuma igreja ou capela nos arredores realizasse o casamento.

A 19 de Março Wellington escreveu uma carta a D. Maria Ludovina na qual pedia a palavra dela que se a filha regressasse a casa não seria confinada a um convento, o destino ususal, para as meninas rebeldes de boas famílias. No mesmo dia Wellington escreve uma outra carta a Cole, em Figueira de Castelo Rodrigo, que entretanto estava já a par do escândalo, dando-lhe instruções detalhadas:

“Freneda, 19 de Março 1813
Sir, A mãe da donzela levada de casa pelo Tenente Kelly do 40º Regimento, queixou-se da sua conduta e pediu a minha ajuda para retirar a filha dessa situação de desgraça em que agora está colocada. Consenti em intervir, com a condição e promessa da parte dela, de que a rapariga não será confinada a um convento. Junto remeto a carta da senhora, na qual ela se compromete a cumprir essa disposição, e peço-lhe para chamar o tenente Kelly para devolver a menina á sua família.

No caso de ele se recusar a faze-lo sob sua ordem, peço que o coloque sob detenção e proceda a retirada da donzela da protecção dele e a entregue á família em Cedovim, dado que não posso consentir que nenhum oficial possa ser responsável pelo incumprimento das leis em Portugal, uma vez que levar e uma jovem de sua família e retê-la contra a vontade de seus parentes e menor de idade trata-se de um crime e ainda por cima retida dentro do espaço do nosso aquartelamento.

Peço-lhe que me devolva a carta inclusa. Se achar necessário colocar o tenente sob prisão, pode detê-lo até que a jovem seja devolvida á família e informe o tenente de que tem ordens directas minhas para não atravessar as margens do Côa. Lt. General the Hon. Sir G.L Cole, KB”

De acordo com as ordens superiores recebidas e dado que Kelly se recusou a obedecer ás ordens, Cole colocou-o sob detenção. No entanto foi informado por Kelly de que as suas intenções eram casar com a jovem e só o não tinha feito ainda por não terem encontrado um padre que aceitasse casá-los. O General pediu então a Kelly para afirmar isso por escrito. Após ter recebido a carta convincente de Kelly, Cole decidiu falar com a jovem e ouvir o seu lado da história, antes de enviar o seu relatório a Wellington.

Na manhã do dia 22 de Março, Cole foi despertado pelo ruído da chegada ao seu quartel de D. Maria Ludovina, que apesar de ter dado a sua palavra a Wellington, estava ali para ir buscar a sua filha e, sem dúvida, para ver o responsável atrás das grades. Foi com alguma relutância que Cole a recebeu, e a confrontação violenta que se seguiu fê-lo pensar que a pessoa que estava diante dele havia mentido e tudo o que pretendia era levar a jovem e receava não só que ela não cumprisse a sua parte do acordo, como era uma ameaça física á jovem.

Após ter deixado a sua presença de forma tempestuosa para regressar a Cedovim e preparar a próxima ofensiva Cole escreveu a Wellington, juntando a carta de Kelly e informando-o da visita de D, Maria Ludovina. Referindo-se a Ana, Cole escreveu:

“Ela parece-me muito determinada a não voltar para casa e prefere correr qualquer risco para o evitar”, concluindo: “ Fui induzido a atrasar a execução das suas ordens até ouvir a sua opinião sobre isto”.

Entretanto, Sir John Scott Lillie, destacado no exército português, e tomando conhecimento dos factos veio em auxilio dos dois amantes e livra-los desse terrível dilema, a que talvez não seja alheia a conivência de Cole.

Sir John chamou então o padre João Gomes dos Caçadores 7 que, na altura era capelão, e pediu-lhe se podia fechar os olhos á proibição de realizar o casamento dos jovens nesse mesmo dia. Na presença de vários Oficiais do regimento a mão de Anna foi dada a Kelly por Sir John e o casamento celebrado na Igreja de Figueira de Castelo Rodrigo. O tenente e mrs. Kelly regressaram a Mata de Lobos desta vez para celebrarem com seus amigos.

Desconhecendo estes factos, mas confirmando os piores receios de Cole, D. Maria Ludovina regressou a casa e fez todos os preparativos para que Anna fosse encarcerada em seu quarto emparedando as janelas por onde ela havia fugido para que tal não voltasse a acontecer.

Há algum tempo atrás antes do casamento de Wellington com Kitty Pakenham, Cole teria sido pretendente dela – facto que permanecia na consciência de ambos; e que deverá ter sido embaraçoso aqueles dois homens estarem a trocar correspondência do tipo “affair de coeur”. Wellington terá dado a impressão de que toda esta correspondência o irritava dado que habitualmente ele se dirigia por carta a Cole com “My dear General” ou “My dear Cole” e neste assunto em particular ter-se á referido a Cole como “Sir”.

Ainda ignorante acerca do casamento da jovem no dia 22 de Março, Wellington escreve a Cole nesse mesmo dia:

“Freneda, 25 Março de 1813

Sir,

Recebi a sua carta de 22 deste mês e tendo ficado satisfeito com a promessa feita pela mãe da jovem levada pelo tenente Kelly do 40º Regimento, não posso conceber que hajam dúvidas a respeito das minhas ordens nem de quaisquer indivíduos possam de alguma forma atrasar a sua execução.

A respeito das intenções do tenente Kelly de casar com a jovem ele não está em posição de o poder fazer e as suas preocupações devem ser as de reparar os danos que entretanto causou á família.

O tenente Kelly não poderá celebrar o casamento, dada a influencia que a mãe da jovem dispõe e que proibiu que o casamento pudesse ser celebrado em qualquer igreja próximo. Poderia tê-lo feito em Espanha que dista apenas algumas milhas e não o fez, o que demonstra que as intenções dele não são exactamente como referiu.

O Tenente Kelly infringiu não só as leis de Portugal como as leis de todos os países civilizados, e se eu for chamado á responsabilidade por isto não hesitarei em entregar o tenente Kelly ás autoridades.

Não creio que possa satisfazer as pretensões da mãe em que “ele fosse entregue á disposição de um tribunal Português”, essa noção é comum entre os nossos oficiais de que não são obrigados a obedecer ás leis do país onde se encontram; por outras palavras, podem fazer o que quiserem, cometer toda a espécie de ultrajes que nunca serão submetidos a tribunal marcial.

Não posso admitir tal doutrina, e o tenente Kelly será submetido ás autoridades Portuguesas no caso de estas assim o solicitarem.

Peço mais uma vez que as minhas disposições contidas na primeira carta enviada a 19 sejam executadas de imediato.

Wellington Lt. General the Hon. Sir G. L. Cole, KB”

Neste despacho Wellington atira as leis por terra propositádamente, ao sugerir implicitamente na sua carta que se de todo não fosse possível casar em Portugal a opção seria ir a Espanha que ficava apenas a algumas milhas de distância.

Os eventos precipitam-se então e é difícil manter a paz com D. Maria Ludovina que ao que parece regressa a Figueira de Castelo Rodrigo a 25 de Março a fim de desafiar Cole a entregar e a cumprir as ordens dadas por Wellington. Mas este emite um despacho a Wellington a 26.

“Figueira, 26 de Março de 1813

My lord

Tive a honra de receber a sua carta que me chegou antes de ontem em resposta á minha de 22.

Presentemente o tenente Kelly encontra-se casado com a jovem em questão em cerimónia celebrada pelo capelão dos Caçadores. Peço, perante estas circunstâncias, que me informe, se ainda é sua vontade o cumprimento de tais ordens e o tenente obrigado a devolver a jovem á família.

Quanto á mãe, foi já informada deste facto mas não quer ouvir isso e insiste em levar a filha para casa.
Posso assegurar a V. Exa que sempre foi minha intenção o cumprimento das suas disposições e depois desta sua carta não hesitaria por um momento em forçar o tenente Kelly a desistir da jovem. No entanto, e perante estas novas circunstâncias, fico com duvidas se será mesmo esta a sua vontade de entregar a jovem á sua mãe, da qual ainda ontem tive noticias de que darei conta mais tarde e que reforça a opinião que tenho dela em não cumprir com o acordo que fez consigo.

Lt General Cole His Excellency Marquis Wellington”

Cole estava muito ansioso em obter uma resposta a esta sua missiva que terminou com “His Exellency”. Depois de selar a correspondência esta foi enviada por um emissário com instruções para trazer a resposta na volta sobre o que fazer com a jovem.

Quem pensou que o assunto estava encerrado é porque subestimou a fúria de D. Maria Ludovina que recusava admitir a derrota. Num último e desesperado gesto de desafio, ordenou que a sua carruagem se dirigisse a Freneda e durante a viagem deve ter redigido o ultimatum que planeava entregar ao mais poderoso homem do Reino.

O Juiz Advogado Geral em Freneda reparou que “em Freneda não há mulheres, apenas senhoras discretas”; então, a aparição de D. Maria Ludovina num domingo dia 29 de Março deve ter causado alvoroço naquele Quartel General.

Nessa ocasião Wellington que tinha grande influência junto dos Portugueses, não teve de a usar, uma vez que D. Maria Ludovina foi a única que falou durante todo o encontro. Tudo o que disse acabou por confirmar as suspeitas que Cole tinha sobre ela e quando pode pronunciar alguma coisa apenas disse de forma curta de decidida:
“Não, a rapariga está casada e ponto final”.

Esta resposta teve o efeito de inflamar D. Maria Ludovina, e o Juiz Advogado que a acompanhava e estava presente nesse encontro recordava que “ Antes de deixar Freneda ela jurou apanhar Kelly e o padre que os casou e prende-los para o resto da vida e que se a filha lhe aparecesse á frente que a matava”.

Ignorando estes factos de que fora sentenciada á "morte" e desprevenida das ameaças da mãe, no dia 1 de Abril Anna celebrou o seu 19º aniversário em Mata de Lobos. A sua escolha de vida foi totalmente diferente daquela que provavelmente teria se tivesse ficado em casa.

Desde esse dia ela fez parte desse enorme exército de amazonas que seguiam atrás das tropas aliadas. Era feito de toda a espécie de coisas inimagináveis para ela, mas tinha em comum com esse exército uma coisa, a sua bravura e a sua coragem.

Epilogo

A 19 de Maio de 1813, Anna, agora grávida, empacotou os seus bens e marchou a caminho de Bordeaux onde chegou 12 meses depois. No mesmo dia que a família Kelly chegava a Miranda do Douro o seguinte decreto era assinado em Lisboa, uma das três ameaças de D. Maria Ludovina:

“Este meu decreto com data de 25 de Maio, 1813, e de acordo com a vontade de Sua Exa. Marechal Beresford, Marques de Campo Maior, o Padre João José Gomes é expulso do Serviço Real por conduta imprópria”.

Depois da Batalha de Victoria a 21 de Junho, Anna seguiu o seu marido até aos Pirinéus e lá serviu de sua enfermeira após ele ter sido gravemente ferido durante o confronto sangrento de 28 de Julho acima de Zabaldica. Durante o mês de Outubro o Regimento gozou de um período de repouso em Echaler e aí os Kelly puderam apreciar uma segunda Lua-de- Mel.

Mais tarde, em Dezembro, o Regimento foi acantonado na vila de Arruntz, e durante os primeiros dias de Janeiro Anna presenteou o seu marido com uma bebé. Ironicamente chamou-lhe Maria Ludovina, o nome da avó.

A batalha de Toulouse, foi o principio do fim da guerra e terminada a Guerra Peninsular a 14 de Junho a família Kelly embarca no HMS Sultan em Bordeaux com destino a Cork.
No entanto como Inglaterra estava em guerra com a América, os veteranos da Guerra Peninsular foram chamados a reforçar o 40º Regimento e sobre o comando de Sir Edward Beckaham, embarcarem com Wellington a bordo do “Hms Ajax “ e do “HMS Baring” escoltados pelo “HMS Sultan”.

A 8 de Outubro o Tenente e Mrs. Kelly juntamente com a filha, e um outro filho a caminho, embarcam no “HMS Baring”.

Após zarparem, no dia seguinte são apanhados por uma forte tempestade e depressa o navio encontra problemas. Perde o leme, atravessa-se á vaga que embate no casco com violência. Começa a meter agua e só resta uma opção encalhar o navio para evitar que se afunde com aquela gente toda. Perdem-se 5 vidas e todas as bagagens e haveres vão para o fundo.

O comboio parte novamente a 2 de Novembro e a 13 á vista da Ilha da Madeira, as ordens seladas são abertas e o destino conhecido.

A infeliz expedição a New Orleans pertence á historia militar. De facto quando a batalha teve lugar a 8 de Janeiro as noticias ainda não tinham chegado, quando o navio partiu. O armistício foi assinado a 24 de Dezembro.

Depois de um longo período de repouso na Ilha de Dauphine, o Regimento partiu para casa, em meados de Abril, e foi já no alto mar que receberam a noticia de que Napoleão havia escapado para a ilha de Elba. O navio de transporte ancorou em Spthead e recebeu ordens para de imediato de deslocar para Ostend. Daí o regimento seguiu para Ghent, onde permaneceram de guarda ás Cortes de Luís XVII.

O tenente Kelly era agora o Tenente Sénior do Regimento, e a 8 de Junho, a aguardada promoção a Capitão chegou. Com este posto participou na Batalha de Waterloo a 18 de Junho, enquanto algures na retaguarda, Anna e a criança ouviam os trovões da artilharia.

Após anos de serviço militar, e não vendo mais perspectivas de carreira e com uma família para sustentar Kelly vendeu a sua Comissão e abandonou o exército. Agora com este dinheiro e com o dinheiro da venda de uma casa em partilhas mais o premio monetário por ter participado na batalha de Waterloo, arrendou uma propriedade agrícola em Maudlin Cottage no Condado de Kildare.

A aventura agrícola foi desastrosa, enquanto a terra se mostrava improdutiva, Anna provava o contrário e Maria Ludovina foi seguida de Jane Elianore, William Waldron, Anna Emília, Eliza e dois outros filhos. Quando recebe a noticia da morte de seu pai Anna viaja a Portugal e tenta receber a sua parte, pela via judicial, mas fora deserdada, regressa á Irlanda de mãos vazias. Kelly perdera todo o seu dinheiro na aventura agrícola.

O que terá acontecido fica, para já com a imaginação de cada um, sabe-se que deixa a mulher e os filhos para casar (de forma irregular) com Jane Owen’s filha de um General, e de quem tem filhos, e depois parte para a Jamaica como Barrack Master em Kingstown. É aqui que morre em 1836 aos 55 anos de idade. Anna só sabe da sua morte onze anos mais tarde.

Quando foi confirmada a morte pelo Horse Guards, ela pediu uma pensão de viuvez, apenas para ser informada que não se qualificava para tal uma vez que o marido deixara o exército.

Nesta altura Anna estava já desiludida, doente e a cegar rapidamente; mas Sir John Scott Lillie, que lhe dera a possibilidade de casar anos antes, mantinha-se um bom amigo. Escreve ao Duke de Wellington e junta um memorando de Anna, que é endereçado á rainha Victoria dando conta de todos os seus problemas.

A resposta foi pronta, sem duvida com a ajuda de Wellington, de Lord Pitzroy Somerset, pois atribuiu-lhe uma pensão de 50 libras por mês.

Vivendo básicamente de caridade, proscrita pela família, Anna morre aos 89 anos de idade. Foi sepultada em Glasnevin Cemetery em Dublin.

Aquelas janelas tapadas permanecem até hoje em Cedovim na casa de sua Família como um monumento e um simbolo aquela valente rapariga que virou as costas a tudo para seguir o seu amado soldado, os seus ideais as suas convicções. Foi em frente naquilo em que acreditou e o resultado disso pode ter sido uma vida difícil para ela mas a garantia de que gerações futuras povoarão este mundo graças ao seu empenho. Sem isso eu nem sequer existia.

Obrigado por teres fugido Anna!


Notas: Depois de ler diversos documentos e versões creio que aquilo que de facto deve ter acontecido foi que D. Francisco, ao contrário do que é afirmado, não se terá conformado com o casamento de Anna e Kelly. Ao contrário de sua mulher, remeteu-se ao silêncio depois de ter dito que Anna deixaria de ser sua filha caso não regressasse a casa e que portanto a partir desse dia seria deserdada.

Contráriamente do que consta na versão "oficial" da história, a mãe, D. Maria Ludovina, não era uma mãe furiosa mas sim uma mãe desesperada que sabia que se não conseguisse trazer Anna para casa, esta estaria irremediávelmente condenada a ser deserdada.

Para o provar consta num documento do processo em que Anna tenta habilitar-se ás partilhas, o seguinte:

“ Maria Ludovina morreu com testamento em que declarou, que do matrimónio contraído com seu marido tinha actualmente tantos filhos.......... e Anna, os quais instituía por seus herdeiros, à excepção desta ultima, Ana, porque sendo deserdada por meu marido por ter casado sem o seu consentimento, sendo menor de 25 anos, não posso apartar-me da vontade de meu marido, em conformidade das disposições das Leis. E continua o testamento “...nomeio em meu filho António, todos os meus prazos e o direito da sua renovação, bem como lhe deixo a terça de todos os meus bens móveis e de raíz, direitos e acções, com o encargo de dar e pagar a minha filha Anna em cada um ano e por toda a sua vida da mesma minha filha a quantia de 9 moedas de 4.800Reis ( 43.200Reis).

Supondo que casara Anna ainda menor de idade e sem consentimento paterno, nem suprimento judicial, supondo também que houvera a deserdação a que alude o testamento de sua mãe, ainda não se sabe os termos de tal deserdação porque não aparece, e supondo por outro lado, que a mesma consulente, Anna, não casara com pessoa de inferior condição, nem de religião diversa, mas fora subtraída de casa de seus pais, e daí levada á igreja por seu futuro marido, onde um Padre os recebeu em presença de testemunhas...”

Portanto, se a mãe, D. Maria Ludovina fosse uma mãe “má”, como consta da versão oficial da família, não teria encarregado seu filho de pagar anualmente a dita importância. Apenas não a incluía no seu testamento porque “...Não posso apartar-me da vontade de meu marido, em conformidade com as disposições das Leis...”, ou seja, mesmo que o quisesse isso seria violar a lei vigente na altura e seus outros filhos não deixariam por certo de ter uma palavra nesse assunto.

É certo que Anna tentou a partilha dos bens numa acção que moveu a seus irmãos, mas a acção foi-lhe desfavorável tendo perdido a causa.

“Dizem António de Lemos Teixeira de Aguilar (irmão de Ana), mulher e irmãos, desta cidade, que tendo proferido o acórdão, que confirmava o Despacho, o Juíz da primeira instância, que o requerimento de D. Anna Ludovina de Aguilar Kelly, os mandava discorrer e conferir os bens das heranças dos pais dos suplicantes, a fim de lhe darem partilha nelas, apesar de terem negado por termos que fosse sua herdeira e sucessora, e tendo este acórdão força de sentença definitiva, porque se julgou a requerente sucessora, sem os ter convencido que o era, e causando-lhe dano irreparável, porque dá resultado de os privar de uma parte da herança de seus pais, requer que nele se lhe mande tomar termo de recurso de revista para o Supremo Tribunal de Justiça, e pode V. Excia. Seja devido mandar lho tomar. Procurador Albano de Miranda Lemos, 4 de Maio de 1859”

Portanto fica também claro, de que Anna não disputou a herança com sua mãe, mas sim com seus irmãos, que por testamento lhe teriam de pagar a dita importância referida por D. Maria Ludovina. De referir que a opinião que este seu irmão tinha de Anna também não era a melhor, o que também pode indicar que a relação de ambos estaria comprometida pelo desacordo de heranças. O pagamento de tal importância estaria comprometido? Creio que pode muito bem ter sido o caso.

“ ...Dizem António de Lemos Teixeira de Aguilar e sua mulher D. Barbara da Silva Noronha, e irmãos e cunhados, desta cidade, que por este Juízo procede ao inventário de Maiores, por falecimento de seus Pais, Francisco Teixeira Rebelo Bravo Pacheco de Aguilar e D. Maria Ludovina de Lemos Alvim de Carvalho, a requerimento de D. Anna Ludovina de Aguilar Kelly, na qual não se pode continuar o processo pela certidão junta, motivo que está pendente no Juízo contencioso uma acção em que os suplicantes, por a requerente “se ter deixado seduzir e corromper, levar a sua honra e raptar por Waldron Kelly, protestante e tenente do Regimento nº 40 da Infantaria Inglesa e ter fugido com ele da casa paterna por ocasião da Campanha Geral, na idade de 18 anos e 11 meses e ter sido expressamente deserdada por seus pais nos testamentos com que faleceram; pedem que seja por estes factos e pela imediata disposição da Lei, julgada ipso jure, desnaturada e excluída da sua sucessão aos seus bens, fazendas e inibida para os haver na forma da Ordem. Francisco Teixeira Sampaio, despacho de 22 de Junho de 1859”

Cronologia de D. Anna Ludovina de Aguilar Kelly

01 Outubro 1794 – Nasce Ana Ludovina Lemos Pacheco Teixeira de Lemos Pacheco Teixeira de Aguilar

07 Março 1813 – Ana e Waldron Kelly planeiam a fuga

13 Março 1813 – Ana foge de casa de seus pais

19 Março 1813 – Carta de Wellington a D. Maria Ludovina pedindo que não mandasse sua filha para um convento

22 Março 1813– D. Maria Ludovina dirige-se ao General Cole e exige a devolução da filha

22 Março 1813 – Sir John Scott Lillie entrevem e pede ao Padre João Gomes que case Ana e Waldron 25 Março

1813 – D. Maria Ludovina dirige-se a Figueira de Castelo Rodrigo e exige a Cole que cumpra as ordens de Wellington

26 Março 1813 - Cole informa Wellington que Kelly e Ana estão casados

29 Março 1813 – O Juiz Advogado Geral promove um encontro entre Wellington e D. Maria Ludovina em que esta exige a entrega da filha. Wellington responde que não pois “a rapariga está casada e ponto final”

01 Abril 1813 – Ana completa 19 anos em Mata de Lobos

19 Maio 1813 – Ana está grávida e vai a caminho de Bordeaux

25 Maio 1813 – O Padre João José Gomes é expulso do exercito por conduta imprópria

28 Junho 1813 – Waldron é ferido na Batalha de Victoria

Outubro 1813 – Nasce o primeira filha do casal a quem chamam Maria Ludovina

14 Junho 1814 – O casal embarca no HMS Sultan com destino a Cork

08 Outubro 1814 – O casal embarca no “Baring” rumo á América

09 Outubro 1814 – O navio encalha após uma tempestade lhe ter arrancado o leme. Perdem os seus haveres e morrem 5 pessoas

02 Novembro 1814 – Embarcam novamente rumo á América

13 Novembro 1814 – O navio chega á Ilha da Madeira e é conhecido o destino, Guerra Civil Americana

08 Janeiro – Trava-se a ultima batalha da Guerra civil Americana pouco depois de o navio ter zarpado da Madeira.

Abril 1815 – Após longo período de descanso o Regimento regressa a casa.

08 Junho 1815- O tenente Waldron Kelly é promovido a Capitão

18 Junho 1815 – Trava-se a Batalha de Waterloo e Waldron toma parte nela

1836 – Waldron Kelly morre na Jamaica aos 55 anos de idade Junho

1859 – Aos 65 anos de idade Anna Ludovina vem a Portugal reclamar a sua parte na herança de seus pais e perde.

04 de Abril de 1883 – Morre D. Anna Ludovina de Aguilar Kelly aos 89 anos .

Fontes consultadas “The Elopement of Anna Ludovina Teixeira de Aguilar with Lieutenent William Waldron Kelly” – By J. W. Chambers

Cole – Sir Lorry Cole papers.

Public Record Office Gurwood – The Dispatches of Field Marshal the Duke of Wellington compiled bu Gurwood

1838 Larpent – The private Journal of F. Saymour Larpent -

1853 Lawrence – The Autobiography of Sargeant William Lawrence –

1886 Smythies – Historical Records of the 40th (2nd Somersetshire) Regiment by Capt. R. Smythies

1894 Arquivo particular de John M . Souza

Arquivos de Familia

Minha identificação na arvore
8-Francisco Teixeira Rebelo Cardoso de Aguilar + Maria Ludovina Lemos Pinto

7-Anna Ludovina Aguilar Kelly + Waldron Kelly

6-Ana Emília Aguilar Kelly + Francisco Cristóvão da Cunha Lima

5-Maria Júlia de Aguilar Kelly Cunha Lima + Charles Frederick Chambers

4-Maria Júlia de Aguilar Kelly Cunha Lima Chambers + Artur Nunes Pinto

3-Maria Fernanda Chambers Pinto + Joaquim da Silva Salgado (jr.)

2-José Guilherme Pinto Salgado + Maria Stuart Costa Conceição

1- Arnaldo Joaquim Costa Conceição Pinto Salgado